Furia Em Duas Rodas -
O mundo virou câmera lenta.
Ela estranhou o aperto do abraço, mas retribuiu. furia em duas rodas
Bruno viu o pneu do Fiesta a trinta centímetros de sua canela. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus atrás do para-brisa. Viu a própria mão no guidão – e notou que ela tremia. Não de medo. De vergonha. O mundo virou câmera lenta
A fúria evaporou num segundo, deixando apenas o vazio frio de quem quase transformou uma noite comum em estatística. Ele jogou o corpo para a direita com um reflexo que não era coragem, mas sobrevivência pura. A moto raspou o asfalto, o pedal de freio arrancou faíscas. O ônibus passou zunindo, o vento sacudindo o capacete. O Fiesta finalmente entrou à direita e sumiu na chuva. Viu o olho arregalado do motorista do ônibus
Na primeira ultrapassagem, cortou um Gol quadrado pela direita, raspando o retrovisor. O motorista buzinou. Bruno ignorou. A velocidade subiu para oitenta, noventa, cem – dentro da cidade, um absurdo. O vento não refrescava; alimentava. A cada giro do acelerador, ele deixava para trás um pedaço da humilhação.